quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Passaro prateado (parte 3)

(...)

Alguns anos atrás Roberto dormira a tarde toda naquele sofá. Agora ele sentava e conversava com o irmão.

Quem era aque... – Roberto começou. Mas nesse momento um pastor alemão surgiu do nada e pulou no colo de Matheus. O cachorro era enorme, mas não parecia ameaçador de forma alguma. Matheus fez carinho casualmente no pastor alemão e assim que o cão percebeu sua presença foi trotando para o outro lado do sofá onde Roberto estava sentado – ...quem é esse aqui? – ele perguntou levantando o café para o cão não tomar.

– Essa é a Samanta. A minha cadela. Você tava de porre e não lembra, mas eu já tinha ela quando você veio visitar.

– Você mora num apartamento com uma cadela de vinte quilos?

– Vinte e oito quilos. Você morava num apartamento com uma também. Ao menos essa não vai roubar o meu... – depois disso Matheus parou e deu um longo gole no café como se tivesse dito a maior besteira do mundo. Roberto mudou de assunto.

– Quem era aquela garota?

– Uma garota que eu conheci numa festa. Eu tinha uma namorada, sabe. Mas ela me largou para se casar com a melhor amiga.

Roberto engasgou com o café. Ele tossiu e tomou fôlego para perguntar:

– O que?

– Ela me largou para casar com a melhor amiga. Eu a vi pela TV na ultima parada Gay – Matheus ficou melancólico por um momento (o que para ele era a maior demonstração possível de tristeza) e depois riu e deu de ombros. “O que se pode fazer?”.

– O que você fez? – perguntou Roberto curioso e impressionado – como você encarou a situação?

– Eu, meu irmão – ele disse pensativo e fez uma pausa em busca de ênfase, apontou um dedo para o irmão – Fiz o que você deve fazer. Eu recomecei – ele disse inspirado – Fiquei triste, encarei o problema, mas comecei de novo e aí... – ele levantou as mãos com as palmas para cima como se fosse simples – eu mudei.

– Tudo parece simples quando se fala assim – respondeu Roberto.

– A vida é simples. Nós a complicamos. É simples assim: comece de novo.

– Mesmo assim é difícil.

– Eu nunca disse que é fácil. Mas é simples.

Roberto pensou naquilo. Não deixava de ser um bom conselho, ficou olhando pela janela até que o irmão quebrou repentinamente o silêncio.

– A gente tem que ir visitar a mãe, – ele disse – ela tem uma coisa importante pra te dizer – ele fez uma pausa como se quisesse contar ali mesmo, mas não falou nada. Parecia muito preocupado de repente e era mais do que claro que não era com ex-namorada que virou a casaca.

– O que? – perguntou Roberto aquilo o incitara mais ainda.

– Ela quer te contar pessoalmente – respondeu Matheus. Inflexível, teimoso cabeça-dura. Quando ele falava desse jeito nem o diabo o fazia mudar de idéia.

– Ta então vamos visitar ela então – Roberto pensou em perguntar de novo, mas sabia que o irmão sabia guardar um segredo. – eu vou levar as malas e já fico por lá.

– Não eu não acho necessário – novamente ele não disse mais nada. Nova mente inflexível. Ah, que moleque teimoso.

(...)

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