terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Passaro prateado (parte 2)

(...)
Ele tinha uma vida quase perfeita e desde que a esposa atirou o primeiro vaso na cabeça dele ele começou a imaginar: “que diabos deu errado na minha vida quase perfeita?”. A resposta era óbvia: a parte do quase.

Foi desperto dos seus pensamentos por uma batida de leve no vidro da porta do táxi que ele pegou. Era Matheus o seu irmão com um sorrido falso na cara que quase literalmente dizia: “a mamãe falou para eu não fazer graça com você ter sido despedido”. Matheus sempre foi engraçado e sempre fez piada com absolutamente tudo. o pai deles costumava dizer que “esse moleque vai fazer piada até mesmo com a corda da forca no pescoço”, sempre que dizia isso o pai começava a rir.

– Oi seu babaca. – só agora notara como o irmão estava diferente. Da ultima vez que vira o irmão fora quando visitara o Brasil pela ultima (e única) vez e naquela época ele estava com uns 17 anos e era mais organizado. Agora tinha a camisa aberta na frente, apesar do frio, a barba um tempo sem cortar e um bronzeado. Roberto saiu do caro num salto e noutro abraçou o irmão.

– Você é o Babaca... – ele resmungou abraçando o irmão que ele mal reconhecia.

– Ôoo! Cara que isso? – disse Matheus depois de alguns segundos de abraço. Mas Roberto sabia que o irmão estava feliz em vê-lo. Os dois estavam – cara, olha só pra você!

Roberto estava usando um terno francês que custou mais que o vôo para o Brasil. Usava também uma colônia francesa muito boa e tinha a barba bem aparada.

– Os franceses te contagiaram mesmo – disse Matheus, ele sorria e apontava para a cara do irmão. Com um falso fascínio.

– O que? – Roberto não entendera se havia uma piada por traz daquilo. É claro que havia.

– Você está mais bicha do que quando foi. – disse o irmão e caiu na gargalhada como a criança que era. Ele tinha quantos anos? Vinte e três?Roberto não conseguia lembrar. Ele parecia fisicamente mais velho, mas agia como um garoto de treze anos.

Roberto riu também e deu um soco no ombro do irmão. Isso somente fez o irmão rir mais. Ele pagou o taxista e Matheus o ajudou com as malas. Ele trouxera só o essencial para o Brasil o resto fora vendido por euros ou abandonado no apartamento francês vendido com todos os móveis. Matheus morava em um apartamento, que fora pago pelo pai antes deste morrer, era grande havia e espaço pra os dois. Quando Matheus mostrou-lhe seu quarto Roberto colocou as malas perto da cama e olhou para o aposento. O lugar era pequeno, mas os móveis foram dispostos de um jeito muito bem planejado de modo que o quarto ficava espaçoso. Tinha as paredes brancas e duas camas de solteiro que estavam entulhas perto da janela para formar uma cama de casal. Um guarda-roupa de quatro portas dominava a parede oposta e uma escrivaninha estava posta com papéis bagunçados ao lado da porta.

Da janela do 12° andar se via a grande cidade dominando toda a paisagem exterior. Prédios, ruas e lojas, pessoas, carros e bicicletas, tudo amontoado num pedacinho da cidade. O ap era bem no centro da cidade e a vista era boa. Ele não ficaria ali por muito tempo, planejara que iria ficar somente até achar uma casa própria. Ele não se deu ao trabalho de desfazer as três malas de mão que levava com sigo. Em vez disto foi à mesma cozinha que ele vira anos atrás na visita que fizera. Encontrou o irmão dando adeus a uma mulher com uma xícara de café na mão.

– Então o que achou do quarto? – ele perguntou com uma gentileza quase estúpida.

– Chama aquilo de quarto? – Roberto perguntou.

– E você chama isso de cara?! – disse Matheus e depois riu.

– É melhor que a sua – Roberto respondeu. O irmão riu ainda mais – Quem era ela? – perguntou gesticulando para a mulher que acabara de sair.

– Uma garota que eu conheço – respondeu Matheus e depois deu o sorriso mais malicioso do mundo – e conheço cada detalhe...

Roberto começou a rir – os dois na verdade – e Matheus lhe ofereceu uma xícara de café, Roberto pegou e deu um gole. Ele quase engasgou. Olhou para o café na xícara e depois deu uma longa olhada para o irmão para ter certeza de que aquilo era café. O irmão sorriu e apontou para o envelope de café aberto na pia. EXTRA FORTE. Isso explicava. Matheus riu da cara de Roberto. Pegou a sua xícara e foi para a sala. Roberto pegou o café e foi atrás. No sofá uma guitarra preta que parecia familiar descansava sobre uma almofada, Matheus colocou-a cuidadosamente numa poltrona do outro lado da sala e se sentou ao lado de Roberto no sofá. Alguns anos atrás Roberto dormira a tarde toda naquele sofá. Agora ele sentava e conversava com o irmão.

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