(...)
– Não eu não acho necessário – novamente ele não disse mais nada. Nova mente inflexível. Ah, que moleque teimoso.
A mãe dos dois vivia uma casa na praia a mais de oitenta quilômetros e o tráfego não ajuda muito quando se quer chegar logo num lugar. Ainda mais naquele dia. era inverno como haviam tantas pessoas indo para a praia?
Eles demoraram em chegar, mas quando chegaram a casa estava do mesmo jeito que estava há cinco anos atrás. As orquídeas estavam fechadas, mas grandes e viçosas. As paredes brancas não ficaram amareladas com o tempo e o caminho de pedra pelo gramado estava com uma das grandes pedras amareladas rachadas. Era a mesma casa. Roberto saiu do carro e esperou o irmão dar a volta no carro. Matheus caminhou até ficar lado a lado com ele e se esticou com os braços levantados e separados num Y e depois abaixou os braços até tocar com as pontas dos dedos os cadarços dos sapatos. Isso fez um sol alto de estralo. Matheus fazia muito isso. Sempre que acordava ou depois de ficar muito tempo parado. Mateus abriu a porta do banco de trás para Samanta poder sair do carro, os três foram até a porta bateram e esperaram.
Um homem, desconhecido, alto, grisalho e de camisa listrada atendeu a porta. Ele parecia muito surpreso em ver os dois, mas parecia conhecer Mateus e deu uma olhada realmente longa
– Oi – Roberto estava tão nervoso quanto confuso, se sentia uma criança lendo a tarefa na frente da sala – desculpe, mas uma senhora baixinha e magra mora aqui? Maria Teresa é o nome dela.
Mas quem diabos era aquele cara. Aquele estranho parado na porta da casa onde sua mãe morava. O que ele estava fazendo ali? Um pensamento assustador lhe ocorreu. Mamãe morreu, o velho comprou a casa. Era algo ilógico é claro, mas a verdade óbvia não lhe ocorreu.
– Sim, mas... – balbuciou o homem alto. Se bem que o simples “sim” era tudo que ele precisava. Entretanto a parte do “mas”... Isso realmente mexia ainda mais com ele idéias cada vez mais absurdas passavam zunido por dentro de sua cabeça.
O Homem parecia prestes a dizer algo. Mas pareceu mudar de idéia e entrou na casa, estando dentro ele acenou.
– Venha.
Entrou e reconheceu a sala. Exatamente como tudo mais estava a mesma. Com a TV no canto e um sofá novo no lugar do velho sofá estourado de couro que ele conhecia bem. Praticamente não mudou nada.
– Ah... Meu menino – veio a voz mais gentil do mundo. Ele se virou e viu a mãe saindo da cozinha. Ela passou direto pelo homem alto e correu para ele cobrindo-o de beijos e apelidos carinhosos e deu-lhe um forte abraço. Um abraço forte mas ao mesmo tempo carinhoso e inexplicavelmente quente e reconfortante. “A mamãe era uma artista em dar abraços” era o que Roberto costumava dizer. E depois de cinco anos num pais estrangeiro, cinco anos longe de casa aquela parecia a maior verdade do mundo. O abraço foi longo e gostoso. Ela lhe soltou e o segurou com carinho para dar uma olhada no filho que não via fazia anos. Roberto sorria como um asno com dor de dente e depois de um tempo se lembrou de perguntar.
– E ele? – Roberto perguntou à mãe fazendo um sinal com a cabeça em direção ao homem alto.
– Quem, ele? – a mãe apontou o homem que assistia à tudo sentado no sofá. A mãe o segurou ainda mais forte e disse com o tom mais calmante possível – filho, esse é o meu marido.
A simplicidade do que atormenta os homens atormenta os gênios. E aquilo foi simples: sua mãe disse seis palavras e o que restou do seu mundo caiu no chão aos pedaços.
Ele ficou repentinamente confuso, olhou ao redor: o homem alto que estava sentado olhando pra ele, a mãe que olhava com o rosto emocionado pela cara do filho e o irmão que havia sentado no sofá com a cadela no colo. A visão embaçou de repente e ele ouviu a voz da mãe. A voz perguntava se ele estava bem, mas vinha de tão longe... Ele piscou muito na tentativa de levar embora as lágrimas e esfregou pensando que era choro, mas não eram lágrimas. Então ele desabou. Literalmente.
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