Um homem de pé num campo. O sol castigava as suas costas e ofuscava seus olhos azul-escuros enquanto ele olhava ao redor, espremia os olhos para proteger seus olhos da luz ofuscante, impiedosa do sol. Olhava na direção da estrada que cortava o campo a uns metros dali. Nada via além da mancha amarelo-escura dos campos de trigo que iam além da visão dele, além do horizonte. Olhou para trás a uns poucos metros dali uma única árvore manchava romanticamente o campo de trigo, cujos caules, espigas e folhas subiam até a sua cintura. Ele não sabia quem era o dono daquele campo, nem daquela árvore, mas ficou feliz por aquela árvore ter sido poupada. Não somente pela sombra, mas por que agora ela era especial. Uma árvore solitária no meio do campo é algo estranho e especialmente romântico. Ele deu dois passos longos para trás ficando na sombra da árvore. A uns cento e cinqüenta metros além da árvore começava um pequeno bosque no qual entrava a estrada. A estrada fazia uma curva e formava um S sinuoso dentro do bosque por que o bosque cobria uma ladeira que a estrada acompanhava trabalhosamente. Em algum lugar dentro do bosque denso estava o cavalo negro dele. Ele voltou a olhar para a estrada que seguia reta e distante até alem do campo, até alem daquele condado. Ele sabia que aquela estrada acabava no pé de uma montanha gelada quilômetros dali, mas não acreditava naquilo naquele momento. Achava que a estrada e o campo seguiam até o fim do mundo e mais além. Seguiam e seguiam e seguiam... Ele suspirou. Sim, aquilo seria mais poético. Ele sorriu. Uma estrada sem fim. O vento forte soprava do leste trazendo nuvens fofas para o céu e ar quente para a face direta de seu rosto. Estava quente e em algum lugar uma cigarra chiava. O vento desenhava padrões no trigo jogando de um lado para o outro seus falos como ele bem entendesse. O trigo dançava ao vento desenhando ilhas banhados por um mar calmo onde as ondas fluíam, batiam nas ilhas as apagando. Sim. Ondas, ondas na plantação de trigo. O vento soprava formando ondas. Ele olhou para a estrada. Nada além de trigo amarelo, folhas inconstantes ao capricho do vento. Não o que ele esperava não estava ali. Não ainda. Ele suspirou. Olhou para céu procurando algo para ver. O sol batia nas folhas da enorme arvore desenhando formas abstratas, tortuosas e inconstantes em seu rosto. O sol brilhava por trás das folhas que não tapavam totalmente sua luz fazendo-as brilhar. O vento soprava também nas folhas e elas também dançavam tapando o sol num momento e deixando raios claros brilharem por entre elas em outro. O tempo todo, os raios filtrados pelas folhas desciam em esplendor e beleza. Ele queria olhar para aquilo para sempre, mas seus olhos doíam.
Baixou os olhos para o campo distante marcado pela estrada reta, constante e empoeirada. Nada alem do nada. Campos e campos sem fim. Olhou para o horizonte longínquo onde o amarelo e o azul encontravam-se num contraste lindo e retilíneo. A única coisa imóvel naquela paisagem inconstante onde tudo dançava ao ritmo suave do vento que soprava em quase perfeito silencio através do campo. Nada havia para parar o vento e ele soprava e soprava e soprava sem parar nunca. Sem deixar o trigo ou as folhas descansarem. Ele queria ser como o vento, livre, sem deveres ou juramentos. Mas os juramentos que ele próprio fizera nos últimos anos poderiam prender um exercito. Mas o vento era um deus. Soprava campos sem descansar, trazia chuva, levava-a embora, trazia montanhas a baixo e movia moinhos. Moinhos de trigo. Ele olhou para a estrada. Nada. Apenas trigo nos campos e poeira nas estradas.
Fechou os olhos com força. Olhou para as nuvens fofas e perfeitamente brancas no céu de um azul mais belo e límpido que ele jamais vira. As pessoas diziam que os olhos dele eram azuis como o céu, mas ele nunca vira os próprios olhos e não poderia saber. As nuvens pareciam cavalos. Sim, ele sorriu, cavalos. Eles corriam pelos campos azuis rapidamente de um lado ao outro do céu abobadado e lindo. Quando ele era criança achava que subiria ao céu se achasse uma arvore grande o bastante, só teria que escalar. Ele sorriu devaneadoramente. As nuvens enquanto isso corriam levianamente em serenidade. Tão calmas, belas, pacificas. Sem preocupações ou pressas, ansiedades, medos ou mesmo um destino. Apenas corriam pelo céu azul para chover em algum lugar. Ele se viu obrigado a olhar para a estrada empoeirada, mas sentiu um alivio quando percebeu que o que ele esperava não estava ali. Olhou para baixo agora. O chão, suas botas manchadas da poeira da estrada, o trigo. Ele olhou para as espigas douradas sobre as hastes finas. Passou a mão sobre elas para sentir as folhas e espigas fazendo cócegas em suas mãos. Sentiu cada folha e espiga que tocou sua mão conforme ele passou-a sobre o trigo. Apreciou serenamente a cor e o toque das plantas enquanto passava as mãos sobre elas. Ele brincou ali até achar que era tempo de olhar para a estrada.
Uma nuvem de poeira ao longe na estrada. Ele ficou ali parado sem se mover até que uma rajada de vento soprasse a nuvem para cima do campo que ele pode ver seis homens montando cavalos em galope. Ele estalou o pescoço e se aproximou da estrada. Finalmente eles chegaram.
sábado, 7 de fevereiro de 2009
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Leandro, realmente você escreve muito bem. Continue com esse talento e tente divulgar mais. Use esse dom!
ResponderExcluirTudo de bom!
Bjs
Glaucia