(...)
Roberto deixou o assunto morrer por aí e ouviu o resto da missa.
Luís se tornou um ótimo pregador, e Roberto gostou do sermão – de fato, era uma das primeiras missas nas quais ele não dormiu na metade. Quando acabou Matheus entregou a chave do carro para a mãe.
– Leve o carro para o apartamento e dê comida à Samanta. A gente se vê a noite – ele disse à mãe na saída da igreja.
– Por quê? – perguntou a mãe quase indignada. Matheus sussurrou-lhe algo e ela assentiu hesitante. Ainda em dúvida foi até o carro onde Samanta acordou com um latido e pulou para o banco de trás. No caminho para a casa da mãe no primeiro dia Roberto percebeu o quanto Samanta era bem cuidada. As unhas aparadas, o pêlo limpo, e era bem educada: sempre calma e mansa.
– Onde conseguiu essa cachorra? – perguntou Roberto enquanto o carro saía de vista pelas ruas estreitas e quase vazias.
– Eu quase a atropelei – ele disse descuidadamente. Roberto olhou com as sobrancelhas erguidas em surpresa – é uma longa história. Talvez eu te conte um dia.
Roberto sorriu diante da idéia e começou a subir os degraus da igreja, mas parou e olhou para trás ao perceber que Matheus não o seguia. Matheus pôs as mãos nos bolsos e deu um sorriso como que a dizer “sinto muito não poder ir”.
– Você não vem?
– Não... Acho que vou esperar aqui fora. Já faço uma idéia do que ele vai dizer e não vou querer atrapalhar.
Roberto hesitou, mas subiu o resto da escada até a porta da igreja.
– Duas cervejas como ele vai dizer que eu estava certo – disse Matheus em voz alta para que ele ouvisse. Roberto ignorou-o e continuou subindo.
Luís estava se despedindo de uma família. Roberto cruzou a nave, Luís o esperava sorrindo. Ele abriu os braços e os amigos de infância se abraçaram sem uma palavra sequer.
– Que bom o ter de volta, Roberto – sua voz estava mais sóbria que na época de colégio, mais experiente e também mais paternal e gentil. – Faz tempo.
– Tempo demais – concordou Roberto. Ele sorriu. – eu olhou para o lado por cinco minutos e você vira padre.
Luís riu e olhou para ele, muito pensativo, por um tempo.
– O seu irmão me garantiu que você viria. – Roberto levantou as sobrancelhas surpreso, o padre riu. – E também que você iria querer conversar. Disse que você preza a minha opinião acima de todas as outras. – O padre deu uma risada rápida. –Saiba que o seu irmão o conhece bem, talvez mais do que você mesmo.
Roberto baixou os olhos pensado naquilo. O padre sentou-se num dos longos bancos da igreja e fez com a mão para que Roberto sentasse-se junto dele.
– Conte-me tudo. Tudo que aconteceu para que você viesse a mim.
– Eu... Eu... – Roberto percebeu que não tinha certeza de nada. Não sabia o que dizer ou por onde começar. Inspirou fundo fechando os olhos e então as palavras pareceram começar a lhe vir à mente. Ele contou tudo o que aconteceu desde que chegou ao Brasil. Ele não sabia quanto tempo a historia demorou em ser contada, mas Roberto não economizou detalhes. O padre Igor não o interronpeu em nenhum ponto da narrativa, não fez sequer uma pergunta. Roberto terminou e o padre ficou em silêncio por um longo tempo, olhou para os vidrais que mostravam a crucificação de cristo.
– Então... – finalmente disse o jovem padre. – Você veio me pedir conselhos?
– Sim. Você sempre me ajudou em tudo quando éramos crianças.
– Sim, eu me lembro de uma vez em que você quebrou uma janela jogando futebol. Antes mesmo de ir até a sua mãe ou seu pai você veio a mim. – Ele parecia orgulhoso daquela ultima frase.
– Eu nem estava lá naquele dia, mas recebi a culpa junto contigo. – Aquela memória trouxe sorrisos distraídos aos dois. Os sorrisos que trazem doces memórias de infância. – Mas eu não posso levar a culpa dessa vez, por mais que eu queira. – Ele fez uma longa pausa. – E acredite em mim: eu não quero. – Ele deu uma risadinha sarcástica para mostrar que estava brincando. Ele suspirou, olhou para o órgão ao lado do altar distraidamente. Quando voltou a falar a sua voz e o seu rosto estavam sérios e sóbrios. – Roberto, eu posso acender a luz, mas você, meu amigo, só você pode escolher a porta.
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