segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Passaro prateado (parte 11)

(...)

Roberto pensou naquilo e, por um longo tempo, houve silêncio.

Você tirou isso de um filme, não é? – ele perguntou. Os dois riram, mas naquele momento ambos pensavam na seriedade daquilo. Depois de rirem o padre olhou para ele como que lamentosamente.

– A verdade é que você... – Ele pareceu procurar uma palavra correta – Você é muito orgulhoso. E por isso mergulhou na pena de si mesmo para não ter pena dos outros. Por que se você admitisse a pena dos outros teria que admitir seus erros e a razão dos outros. – Roberto ficou em silencio como uma criança levando uma bronca e era assim que se sentia. Mas mesmo assim não tirou os olhos do rosto sério do padre. – Por exemplo, quando pediu desculpas para o seu padrasto e para sua mãe hoje no caminho para cá. Aquelas não foram desculpas por ser cruel com eles e sim por se humilhar. Nem ligou para ter-los magoado, queria pedir desculpas, pois assim poderia sentir-se com pena de si. Ou ainda, quando Matheus te disse pra seguir com a vida ou quando ele te fez falar com a garota, Fernanda, ele estava certo...

Roberto riu quando pensou no que o irmão disse na porta da igreja. O padre ficou irritado por ser interrompido e abandonou o exemplo. Roberto agora o devia ao irmão duas cervejas. Mas ele evitou pensar nisso para pensar naquilo que o padre lhe dizia.

– E quando você ficou bravo com a sua mãe por se casar de novo. Ela deveria ter ficado brava e não você, pelo amor de Deus. – Ele fez uma pausa balançando a cabeça. – Quantas cartas você mandou?

– Três. A primeira quando cheguei a segunda no casamento no meu amigo um ano depois – ele engoliu em seco.

– Três? E por um ano ela nem soube se você esta vivo? E quantas ela mandou?

Ele nunca realmente havia pensado nisso, ela havia mandado várias cartas quando ele chegou e era verdade que elas diminuíram em quantidade ao largo dos anos, mas nunca cessaram. Ele demorou em se lembrar. Quando conseguiu contar uma onda de vergonha o tomou, ele ficou corou enquanto pronunciava as duas palavras.

– Vinte e sete.

O padre ficou pasmo e de boca aberta, as palavras lhe fugiram.

– Eu não acredito.

– O que eu faço?

– Eu não posso dizer. – Disse o padre. – Eu não sou você. Mas o importante é o que você acha que deveria?

Roberto pensou naquilo. Esquadrinhou a sua mente e a sua alma até mesmo se esforçou em lembrar os velhos ditados do pai.

– Seguir dois bons conselhos: desculpar-me e recomeçar. – Os olhos de Roberto estavam úmidos embora as lágrimas não chegassem a correr.

– Esse é o meu garoto. – O padre sorriu com uma espécie de orgulho batendo no ombro de Roberto. Franziu a cara séria e morena para segurar as lágrimas. – Isso é o mais certo a fazer.

– Acho que é hora de eu ir. O Matheus deve estar esperando.

O padre assentiu, eles se levantaram e se abraçaram despedindo-se. Roberto avançou pela igreja e já estava no meio do caminho quando a voz familiar do padre o fez parar.

– Você vem no próximo domingo, não é?

Ele se virou para o padre. O sorriso fino nos seus lábios era imperceptível.

– Talvez – ele mentiu. É claro que viria.

Do lado de fora Matheus o esperava encostado junto à uma árvore encolhido por causa do frio. Tinha no canto da boca um cigarro que mais parecia um charuto em miniatura.

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