(...)
Do lado de fora Matheus o esperava encostado junto à uma árvore encolhido por causa do frio. Tinha no canto da boca um cigarro que mais parecia um charuto em miniatura.
Roberto acenou para o padre que sorriu de volta.
O dia estava totalmente diferente agora: estava mais frio e totalmente nublado. Um dia frio de inverno, Roberto olhou ao redor. A grande praça cheia de árvores e bancos que ficava na frente da igreja, não tinha uma árvore com folhas. Uma velhinha com um saquinho de papel alimentava um grupo de pombos que eram os únicos pássaros do parque.
Ele viu o que pensou ser um pombo branco voando baixo e rápido na sua frente e pousando numa árvore perto dali. Ele olhou para o pássaro pousado levemente sobre uma árvore acinzentada e sem uma única folha – o que dava a ela certa beleza. Ele olhou curioso para aquele pássaro que desconhecia totalmente. Ele se aproximou da árvore, o pássaro era totalmente branco. Era o mesmo pássaro que ele vira um tempo atrás na janela do seu quarto, mas agora ele estava mais prateado, mais claro. Uma forma nítida quase brilhando em prateado sobre a árvore nua.
Ele se aproximou mais um passo, quilômetros dali alguém estava chamando alguém. Não lhe passava pela mente que era ele quem estava sendo chamado.
– Roberto! – ele reconheceu a voz do irmão. Voltou-se para ele espantado como um homem que acorda de um transe. – Você está bem?
Roberto somente conseguiu assentir estupidamente. Olhou para a árvore atrás do pássaro, mas ele não estava mais lá, Roberto esquadrinhou o horizonte atrás do bater de asas, mas não viu nada. Olhou de novo para o irmão que o encarava questionadora e preocupadamente.
– Eu estou bem.
– Cara, o que você está fazendo ai parado no meio do parque? E com cara que quem viu um fantasma.
– Não. Não vi fantasma nenhum – ele olhou mais uma vez para a árvore antes de passar o braço pelos ombros do irmão e eles começaram a andar pelo parque. – Vi algo muito mais assustador.
– O que?
– A tua cara feia.
Matheus riu alto. Não só pela piada, mas por que estava feliz de ver o irmão simplesmente fazendo uma piada. Fazia tempo que ele não fazia uma piada, ou mesmo ria. Os dois sempre foram muito ligados. Desde sempre um protegia o outro, irmãos exemplares. Brigões, mas exemplares.
– Boas noticias – disse Roberto ainda com o tom brincalhão. – Eu te devo duas cervejas.
Matheus riu mais, Roberto o acompanhou. Pouco a pouco os dois sentiam o tempo voltando até a época da escola, dos risos, malicias adolescentes e brincadeiras infantis. Doces estes tempos em que o céu não tinha fim, o mar terminava na terra prometida e o que importava era uma piada ou um riso ou uma doce criancice e o mais importante – Acima de todas as coisas –: um sonho.
Mas aquilo era passado. E estava para trás. “Quem olha para trás tropeça nas pedras à sua frente”, dizia o velho pai. O que importava agora era viver o momento. Ligar para Fernanda talvez. Recomeçar a viver, comprar um apartamento, seguir o sonho de infância de ser boxeador. Enfim: viver a vida que você ainda tem. Tão certo como o céu é azul você não vai ter-la para sempre.
Não vai.
Era fim de tarde e o dia acabava. Roberto olhava o por do sol à espera de um novo sol nascer. Um sol maior e mais quente; Um sol de recomeço. Um novo dia.
Brisas mornas aqueciam seu peito. Do telhado do prédio onde Matheus morava, ele via um sol laranja se pondo por entre os prédios, se esgueirando por entre as torres de concreto pintadas, com as janelas brilhando à luz do crepúsculo curto do inverno. Não demorou para que as nuvens fossem de laranja à rosa.
Um calor por fora aquecia a sua pele, a luz do sol, o calor que ilumina e aquece nossos rostos e nos diz aonde ir.
Mas outro calor ainda mais forte o queimava por dentro: a emoção. O amor, o carinho, o ódio, a tranqüilidade – Emoções inimigas na praticidade e aliadas no coração –, mas o que o aquecia agora era algo maior e mais quente. Mais importante e mais grandioso: a Esperança.
A esperança de um novo nascer do sol.
Ele nunca mais viu o pássaro. O trabalho do pássaro estava feito.
por L. V. Hass
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