terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Passaro prateado (parte 5)

(...)

Então ele desabou. Literalmente.

De repente ele estava no topo da torre Eiffel com um café na mão, estava frio, era inverno. Ele tinha certeza por que lembrava muito bem: sua noiva tinha ido buscar outro café no segundo andar da torre. Estava frio demais para vinho. Ele se lembrava do calor da noiva quando eles subiram abraçados os 1.662 degraus até o topo para apreciar a vista. Era inicio de noite e as luzes da Cidade Luz estavam começando a ser acesas. Eles ficaram ali no topo até quase a meia noite.

De repente a mão macia tocou seu rosto por trás. Ele se virou. Ela tinha tirado uma das luvas de lã para lhe dar um toque mais quente. Mais amoroso, terno.

Mas, ah... Lá estava ela. Genevive em sua beleza iluminada pelas luzes amareladas das lâmpadas da torre, pelo por do sol e pela cidade. O apelido de Cidade Luz foi muito bem dado. A própria cidade brilhava de uma forma linda e natural. Irradiava luz. E naquele momento, enquanto olhava para o rosto da noiva dourado pela luz, ele encontrou o seu pedacinho de paraíso. O pedaço do céu que todos nós temos nas lembranças. Nas nossas memórias.

As coisas foram ficando mais iluminadas, mais iluminadas, mas menos visíveis elas foram brilhando até seus olhos arderem, mas ainda sim Genevive sorria. Sorria os sorrisos que as memórias sempre sorriem. Sorria belamente com os lábios grossos e a pele dourada, mas mesmo assim sorria o sorriso das lembranças. Ele fechou os olhos para fugir da luz.

Quando as coisas ficaram mais claras – no sentido de mais visíveis, pois ainda brilhavam – ele viu o teto branco da casa da mãe. Ele piscou os olhos cerrados e embaçados para entender. Ele sentia frio. Não no corpo ele percebeu, mas no ombro direito. Era uma bolsa de gelo. Ele viu o encosto do sofá da mãe e entendeu que fora deitado lá. Com o canto do olhou viu o homem alto – seu padrasto – se virando e olhando para trás.

– Ele acordou. – o homem alto disse.

Surgiu na visão dele a imagem da mãe, agora sua visão estava menos borrada e mais clara. Ele viu o rosário na mão dela quando ela lhe abraçou.

– Meu filho, você esta bem? – ela disse soltando-o do abraço – Você desmaiou e bateu com o braço no sofá. Mas você está bem, Marcos disse que foi só uma reação a um choque muito grande. Ele disse algo sobre sistema linfo-alguma-coisa. Mas eu não me importo você está bem.

Ele tentou se levantar, mas o ombro doeu e ele desistiu. Sentiu algo na perna. Olhou para baixo e lá estava a cadela do irmão deitada nos seus pé como uma guardiã. Matheus surgiu da cozinha com um copo. Quando viu Roberto tentando se levantar Mateus foi ajudar e os dois conseguiram sentar Roberto no sofá.

– Marcos? Ah, é mesmo, – ele falou num tom descontraído – o meu padrasto! – ele gritou irônico e furioso.

Ele viajou e sua mãe de casou, porra! Ele também casara, isso era verdade. Mas ele ao menos mandou um convite junto com um presente – um perfume! A mãe negou o convite dizendo que estava com pouca grana para uma visita à paris. Era provavelmente mentira, ela estava noiva.

A imagem nojenta do homem alto dizendo algo besta como: “que perfume cheiroso!” rindo e pulando em cima da sua mãe com as calças arriadas o deixava com náuseas. Ele afastou essa imagem.

– Por que não me contou? – ele continuou mais tolerado, mas ainda mais furioso – Eu casei também, mas mandei cartas convidei para o casamento, mas você disse que não queria porque era muito caro! – ele fez uma pausa esperando uma resposta, mas continuou quando percebeu que não receberia – o que é isso? Por quê? Por que não me contou? Pelo amor de Deus! Por que nem sequer deixou Matheus me contar?

Ele esperou. Talvez a mãe lhe desse um tapa, ou um soco, ou lhe expulsasse ou simplesmente discutisse com ele. Ao invés disso ele manteve a calma. Ela lhe tocou o rosto com ternura. Amor, puro e simples amor de mãe.

– Pelo mesmo motivo pelo qual me casei pele primeira vez – ela disse ainda tocando o seu rosto com uma ternura que somente uma mãe sentiria e somente um filho reconheceria – Eu entendo meu filho. Mas você também tem que entender... – ela fez uma longa pausa como se tivesse tomando a coragem para dizer aquilo – que a vida continua.

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