(...)
– Eu entendo meu filho. Mas você também tem que entender... – ela fez uma longa pausa como se tivesse tomando a coragem para dizer aquilo – que a vida continua.
“Eu amava seu pai, é verdade. Mas também amo Marcos e seu pai se foi querido. Ele foi e eu fiquei. Acho que fiquei para cuidar de vocês. Eu estava esperando até você voltar da França com filhos e família ai você talvez entendesse”
Ele não agüentou. Ele se divorciou, foi despedido, voltava para um país depois de anos e para finalizar: sua mãe se casou e agora ela falou coisas que talvez fizessem qualquer filho chorar. Ele fez o que deveria ter feito tanto tempo atrás: começou a chorar porque além de todas as anteriores a sua mãe estava certa.
Ele via agora. Não queria acreditar e por isso não viu antes. Ainda se negava um pouco, mas sabia que não podia culpar ninguém. A culpa era toda dele. Ele não deu atenção à esposa, levou o fora e não deu atenção ao trabalho e nem deu atenção à família. Era culpa dele.
Era triste, mas como dizia o pai: “a vida é foda, mas fazer o que? É a vida afinal.”. A verdade às vezes é foda, mas fazer o que? É a verdade afinal.
Depois de uns cinco – ou seriam dez? – minutos falando sobre o casamento e como foi o casamento, quando foi o casamento e muitas outras coisas que Roberto realmente não queria ouvir Matheus comentou.
– É, eu acho que não há nada mais sobre o que falar agora – ele disse para a mãe, olhou para Roberto e fez uma pausa – vamos para casa mano, você precisa descansar um pouco. Olhe para você... – ele disse ajudando Roberto a se levantar – você tá um lixo cara.
Roberto ouviu isso, mas não deu muita bola. Ele não daria bola para porcaria nenhuma por um bom tempo. Eles saíram e lá fora Roberto ouviu o som de um trovão forte ao longe, –a cadela Samanta latiu em resposta ao trovão – sentiu o cheiro de terra molhada só então ele percebeu.
No tempo que passara lá dentro havia começado a chover, não muito forte tanto que não percebera antes, mas agora estava chovendo de verdade. Uma tempestade. O chão estava molhado e lamacento. As folhas cediam com o peso da água e pareciam se encolher. Ele ouviu algo muito deslocado naquele dilúvio: o canto de um pássaro. O canto de um pássaro no meio de uma tempestade?! Ele se virou para a porta da casa em busca da mãe e do homem alto chamado Marcos, mas eles já haviam entrado. Eles tinham ido para casa. Era o que ele deveria fazer.
Tinha acabado de anoitecer. A visita à mãe e o padrasto era agora uma lembrança amarga de um ontem ainda mais amargo. Ele não tinha nada melhor a fazer então ficou na cama o dia todo e decidiu ficar lá até aquilo tudo fazer sentido. Porém algo chamou sua atenção. No parapeito da janela ao lado. Ele estava olhando pela janela para um pássaro branco que mais parecia prateado de asa machucada que estava num ninho perto da janela. A chuva havia parado durante a noite e ele precisava de ajuda, ele estava magoado entediado e machucado – tanto física como emocionalmente. Machucado como o pássaro.
Seus pensamentos de auto flagelação foram interrompidos quando alguém bateu na porta. Ele se virou para ver o irmão mais novo numa jaqueta de couro e o cabelo – pela primeira vez desde que Roberto chegou – penteado.ele parecia pronto para uma festa.
– Eu vou pra uma festa.
– É eu percebi.
– Ora, vamos, eu vou com uns amigos e você deveria vir junto. Vai ser bom.
Roberto voltou a olhar para o pássaro.
– Parece entediado e precisa sair deste quarto antes que vire um zumbi – o irmão fez uma pausa então pareceu ter uma idéia, pois o ânimo na voz dele ficou claro – vai ter muitas garotas – Roberto olhou para ele e viu uma cara safada como se o irmão fosse um sucesso com as garotas. E pelo o que se sabia não era.
– O que você acha? – Roberto perguntou. A pergunta era retórica é claro, mas mesmo assim ele sabia que o irmão responderia.
– Acho que sim. Vai se arrumar logo você sabe que vai mudar de idéia – disse Matheus indo para a sala.
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