(...)
Roberto ficou estático por um momento e depois deu uma risada alta. O Matheus que ele conhecia antes de ir para o outro lado do atlântico jamais faria isso.
– E para piorar você não me reconhece.
– Como?
– Fernanda, a gente se conhece da quarta serie – Roberto franziu a testa tentando lembrar. Então ele se lembrou dela como a menina que sentava na frente dele e sempre pedia cola de matemática. Ele olhou para ela e não acreditou naquilo – Lembra?
– Claro que me lembro! Eu... Eu nunca pensei que iria te ver de novo desde... – Ele começou gaguejando e depois parou pensando em como completar aquela frase. Pela primeira vez desde que chegou ao país sorriu. Ele sorriu para o irmão, é claro, mas era um sorriso casual e quase forcado para não ser rude só isso. Mas agora não. Ele estava sorrindo de verdade – ...Que bom te ver.
Na quarta serie Roberto não era um gênio da matemática e nem Fernanda a menina que virou mulher. Então eles trocavam todas as colas que podiam ou sabiam. Era uma parceria que acabou
– Então e você? – perguntou ela sorridente – em que você trabalha?
– Boa pergunta – Roberto deu um sorriso sem graça – em nada – ela ficou esperando ele terminar, isso o deixou mais sem jeito ainda. Ele riu forçadamente e pediu uma cerveja – eu trabalhava numa empresa de propaganda, mas me demiti. Então eu tô meio sem emprego, mas eu vou achar algo.
– Ah... Desculpe ter perguntado – ela se desculpou sem graça.
– Não. Não foi sua culpa. Mas e você? Tem família? Aonde trabalha? Em que?
– Não. Numa faculdade. Eu ensino matemática – ela respondeu. Ele riu sem-graça e quase engasgou a cerveja. Ela riu também. Ele ajeitou a gola da camiseta e se esforçou para ficar mais relaxado.
– Fernanda ensina matemática? – ele disse meio sarcástico, mas ainda um pouco desconfortável. Você mal conseguia aprender, quem dera ensinar matemática.
– Não fale nada você também não era nenhum gênio – ela respondeu. Depois de uma discreta risadinha. Roberto começou a relaxar. Ele nunca foi o piadista da família, mas a família inteira era de piadistas então ele começou, pouco a pouco, a se sentir mais à vontade.
– Eu era tão burro quanto um pastel. O que mostra quão desesperada você estava para me pedir cola – eles riam.
Do outro lado do bar, Matheus ficava de olho. Ele estava conversando com a garota sim, mas o seu foco era o irmão. Era um fato que Roberto não segurava bem a bebida, – na primeira vez que veio até o Brasil numa visita bebeu tanto que a aeromoça precisou da ajuda de dois outros passageiros para levá-lo até o seu acento, tamanha era a ressaca – que, mas Matheus achava que o irmão ficaria bem.
Ele não se lembrava bem do que acontecera depois mas sabia que no final da noite Fernanda disse que era tarde e que era melhor ela ir. Ela lhe entregou um papel com um numero de telefone. “É para gente por o papo em dia” ela disse sorrindo. Ele foi para casa de táxi, pois de novo seu irmão o deixara por uma garota. Ele acordou com o som do pássaro do ninho na janela. Ele ainda sonolento olhou para o pássaro prateado e viu que a asa agora se mexia um pouco. Ele parecia muito melhor do que estava ontem. E Roberto também.
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