sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Passaro prateado (parte 8)

(...)

Roberto ficou estático por um momento e depois deu uma risada alta. O Matheus que ele conhecia antes de ir para o outro lado do atlântico jamais faria isso.

E para piorar você não me reconhece.

– Como?

– Fernanda, a gente se conhece da quarta serie – Roberto franziu a testa tentando lembrar. Então ele se lembrou dela como a menina que sentava na frente dele e sempre pedia cola de matemática. Ele olhou para ela e não acreditou naquilo – Lembra?

– Claro que me lembro! Eu... Eu nunca pensei que iria te ver de novo desde... – Ele começou gaguejando e depois parou pensando em como completar aquela frase. Pela primeira vez desde que chegou ao país sorriu. Ele sorriu para o irmão, é claro, mas era um sorriso casual e quase forcado para não ser rude só isso. Mas agora não. Ele estava sorrindo de verdade – ...Que bom te ver.

Na quarta serie Roberto não era um gênio da matemática e nem Fernanda a menina que virou mulher. Então eles trocavam todas as colas que podiam ou sabiam. Era uma parceria que acabou em amizade. Os dois de saiam muito bem na verdade, quando estavam juntos, pois quando Fernanda mudou de escola as notas de matemática de Roberto caíram de oito para cinco. Não só por causa da cola, mas porque eles eram muito amigos e Roberto não conseguia se concentrar sem aquela voz tagarela e irritante que ele tanto gostava.

– Então e você? – perguntou ela sorridente – em que você trabalha?

– Boa pergunta – Roberto deu um sorriso sem graça – em nada – ela ficou esperando ele terminar, isso o deixou mais sem jeito ainda. Ele riu forçadamente e pediu uma cerveja – eu trabalhava numa empresa de propaganda, mas me demiti. Então eu tô meio sem emprego, mas eu vou achar algo.

– Ah... Desculpe ter perguntado – ela se desculpou sem graça.

– Não. Não foi sua culpa. Mas e você? Tem família? Aonde trabalha? Em que?

– Não. Numa faculdade. Eu ensino matemática – ela respondeu. Ele riu sem-graça e quase engasgou a cerveja. Ela riu também. Ele ajeitou a gola da camiseta e se esforçou para ficar mais relaxado.

– Fernanda ensina matemática? – ele disse meio sarcástico, mas ainda um pouco desconfortável. Você mal conseguia aprender, quem dera ensinar matemática.

– Não fale nada você também não era nenhum gênio – ela respondeu. Depois de uma discreta risadinha. Roberto começou a relaxar. Ele nunca foi o piadista da família, mas a família inteira era de piadistas então ele começou, pouco a pouco, a se sentir mais à vontade.

– Eu era tão burro quanto um pastel. O que mostra quão desesperada você estava para me pedir cola – eles riam.

Do outro lado do bar, Matheus ficava de olho. Ele estava conversando com a garota sim, mas o seu foco era o irmão. Era um fato que Roberto não segurava bem a bebida, – na primeira vez que veio até o Brasil numa visita bebeu tanto que a aeromoça precisou da ajuda de dois outros passageiros para levá-lo até o seu acento, tamanha era a ressaca – que, mas Matheus achava que o irmão ficaria bem.

Ele não se lembrava bem do que acontecera depois mas sabia que no final da noite Fernanda disse que era tarde e que era melhor ela ir. Ela lhe entregou um papel com um numero de telefone. “É para gente por o papo em dia” ela disse sorrindo. Ele foi para casa de táxi, pois de novo seu irmão o deixara por uma garota. Ele acordou com o som do pássaro do ninho na janela. Ele ainda sonolento olhou para o pássaro prateado e viu que a asa agora se mexia um pouco. Ele parecia muito melhor do que estava ontem. E Roberto também.

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