Homens olham para a lua. Disco pálido e perfeito como os rostos brancos com lábios vermelhos de sua terra natal. Como as mascaras lindas que apenas raramente sorriam para a alegria dos homens e mortais. Tão perfeito brilho contrastando o branco do rosto da gueixa brilhante no céu e a escuridão ao redor dela. Homens com rifles pesados nos homens marcham e olham para cima. Olham para a gueixa e pensam. Pensam no seu país. Pensam em Hokkaido, em Honshu, Okinawa, Ryukyu. Olham e se lembram, pois o disco brilhante no céu negro lembra aqueles homens os rostos pálidos de pó de arroz contra o negro das ruas de suas cidades. Lembram-se de suas casas e famílias. Cada homem ali, uma memória diferente. Uma mente, um corpo uma memória.
Os que vieram das áreas agrestes
suspensos nos morros e montanhas. Dos arrozais pequenos, mas tão numerosos que os homens quando crianças olhavam para aqueles campos onde a água era tão abundante quanto o verde e pensavam que podiam plantar arroz. Plantar arroz de Hokkaido até Okinawa. E encher o Japão daqueles lindos arrozais.
Os homens que nasceram junto ao mar e viveram da pesca se lembram dos barcos deixando o porto. Lembram-se dos mastros de onde eram erguidas as redes que, eles sonhavam, vinham sempre pesadas de peixes. Se lembram de passar noites com os irmãos mais velhos que haviam chego dos barcos na ultima pesca do ano. Lembram-se de ouvir os mais velhos falar sobre os peixes que eles pegaram. Um peixe maior do que o outro. Lembram-se de ouvir-los falar sobre os monstros marinhos, as serpentes e as bruxas que moravam ao leste, ouvir as lendas mentirosas que sempre que um pescador ia longe demais mar a dentro jamais retornava.
Os que nasceram nas cidades lembravam-se do cheiro de peixe do mercado e do cheiro de perfume do distrito das gueixas. Lembravam-se dos festivais, das cores das fitas e decorações do ano novo, dos fogos de artifícios. Um deles se lembrou de um chafariz numa pequena praça em alguma cidade pequena e rica de Honshu. Lembrou-se das lanternas de papel que eram acesas todas as noites. Sempre perto da água que caía. Assim a luz seria colorida pelo papel ao redor das velas e brilharia alaranjada como o pôr do sol sobre a água. Um prisma alaranjado era jogado em todas as direções.
Eles sorriam e continuavam a olhar para a linda gueixa nos céus.
A máscara de pó de arroz, as sobrancelhas finas de carvão, os lábios do vermelho mais puro da terra. As gueixas, as artistas. Daquela terra em mudanças. Sua nação mudava e crescia. Mas não perdia a essência, a alma. E eles agradeciam a isso, pois assim sempre haveriam as gueixas. Nenhum deles jamais contratou uma na vida(nao eram ricos o suficiente), mas mesmo assim... Eles as viam pelas ruas, andando como fantasmas flutuantes sobre seda colorida por artesãos e alfaiates. Mulheres que dedicaram seus seres à arte. As artistas que transformavam andar em algo de beleza sobrenatural.
Eles se lembravam de ver aquelas artistas flutuando ao lado de homens japoneses com trajes estrangeiros. Na primavera andavam com os guarda-chuvas coloridos e delicadamente desenhados cheios de pétalas rosadas de flores de cerejeiras. As sakura caíam de suas arvores sobre os ombros dos homens e às vezes, se eles tivessem sorte, cairiam sobre os cabelos negros como carvão das gueixas e eles poderiam tirar as flores de suas madeixas negras.
E agora eles todos sonhavam. Sonhavam que quando voltassem para sua pátria, para suas cidades natais e vilarejos. Vão meninos, diziam seus pais, e voltem como homens! Seriam heróis, os homens que trouxeram poder e honra para todo o Japão. Honra para a nação, para o imperador e para as suas famílias.
Eles olhavam para as estrelas e viam navios, outros viam cavalos, outros montanhas. Alguns viam suas esposas, filhos, pais. Família. Eles olhavam e viam a lona negra cheia de pontos brilhantes. Alguém comentou que a as estrelas não parecem ser as mesmas ali. Apenas alguns ouviram, todos admiravam o brilho de bilhões de pontos luminosos que iluminaram a encosta daquela colina enlameada com uma luz branca prateada. As estrelas pareciam tomar vida diante de seus olhos. Os navios desenhados navegavam num mar invisível e calmo. O cavalo parecia cavalgar rápido pelos caminhos de cascalho antigos entre os bosques. Se você olhasse com cuidado veria o vento na crina dele. Alguns sorriram, alguns simplesmente olharam.
Viam agora o futuro. Viam os filhos que teriam correndo pela casa pequena na qual eles iriam morar. O barco onde pescariam tantos peixes que ficariam preocupados se o peso deles não afundaria a embarcação. A pequena casa de chá onde a única responsabilidade deles seria achar ervas boas o suficiente para manter o bom nome da família.
Mas o Japão não era mais que uma memória e um paraíso para os sonhos. Eles estavam a caminho da Manchúria.
– Vamos! – gritou o coronel chamando seus soldados e apertando o casaco contra si. Ainda estavam em território chinês. Faltava muito até a Rússia e o coronel sabia que provavelmente nem metade daqueles homens iria voltar para casa, ou pisar no japao de novo.
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