(...)
Ele parecia muito melhor do que estava ontem. E Roberto também.
Era um domingo, férias de inverno, dia de igreja. Nas férias de verão ou de inverno a mãe de Matheus e de Roberto levava-os todo o domingo à igreja. Aquele domingo não foi diferente. A família não era muito religiosa, mas era uma tradição de anos. Em três anos, Roberto foi à igreja umas cinco vezes: uma para o ensaio do casamento do cunhado, uma para o dele, outras duas para os ensaios do próprio casamento e uma para o casamento. Mas agora ele teria que, uma vez mais, se sentar no banco desconfortável de madeira dura e ouvir um padre qualquer falar sobre escrituras que ele próprio não entendia.
Eles saíram com o pequeno carro de Matheus para buscar o padrasto e a mãe. Depois de encarar o transito pesado Matheus parou o carro na frente da casa da mãe deles e olhou para Roberto.
– Você está bem? – ele perguntou olhando em duvida para o irmão. Roberto esfregou os olhos sem olhar para o irmão e assentiu nervosamente – tem certeza? – ele perguntou. Roberto olhou para ele e negou com a cabeça – Mas vai mesmo assim? – foi mais uma ordem que uma pergunta, mas mesmo assim Roberto assentiu. Matheus olhou para o irmão mais um pouco e finalmente deu um tapa na perna dele – então vamos.
Eles saíram, lá fora estava nublado e sombrio, o chão estava molhado e o cheiro da chuva ainda voava no vento. Eles foram até a porta e a mãe a atendeu com um vestido e a bolsa pendurada na dobra do cotovelo. Ele lhe pediu desculpas pelo comportamento. Repetiu o pedido de desculpas – o qual ele havia ensaiado em casa e que trazia num papel no bolso para o caso de esquecer algo – para o padrasto que assentiu e disse que não havia problemas nenhum. Matheus pôs o pastor alemão no porta-malas para que a mãe e o padrasto se sentarem no banco de trás. O pastor alemão, que Roberto estava aprendendo a chamar de Samanta, se sentou e pôs a cabeça para fora da cobertura do porta-malas, o qual Matheus tinha tirado especialmente para isso.
Ninguém disse nada no caminho todo. Samanta latiu uma vez e Marcos fez um comentário sobre o tempo, mas não mais que isso.
A igreja era enorme no estilo medieval de uma catedral com vidraças coloridas de todos os santos que Roberto conhecia e muitos dos quais ele jamais ouvira falar. Um dos cantos ele viu a da santa Joana d’Arc a santa preferida da França. Lembrou-se de um colar com a imagem da santa, que Genevive carregava sempre consigo. Sentou-se ao lado do irmão e ficou admirando os vidrais que ele não via em tanto tempo.
A mãe o chamou para sentar-se ao lado deles. Ele se sentou e Matheus se sentou ao lado dele. Dentro de alguns minutos um padre de cabelos castanhos e óculos com um queixo proeminente entrou e começou o sermão. Era o padre Luís, um amigo de escola. Era apenas alguns meses mais velho, mas anos mais responsável.Apesar de jovem era muito digno de se pedir conselhos sobre quase tudo.
Aquela, ele decidiu, era uma boa hora para um conselho.
No meio da missa, enquanto o padre falava apaixonadamente sobre a fuga de Moisés do Egito, Matheus o cutucou com o cotovelo.
– Você vai falar com o Luís depois da missa – era tanto uma pergunta quanto uma ordem.
– E isso te interessa? – resmungou Roberto carrancudo.
– Sim, eu vou ficar contigo – ele respondeu amigável e pacientemente.
– Quer é? – Roberto perguntou mal humorado. Ele olhou para o irmão que tinha um largo sorriso no rosto. Eram raras as memórias que Roberto tinha do irmão que não incluíam um sorriso na cara e uma piada na língua – ta bom, pode ficar – ele disse depois de um tempo.
– Eu não perguntei se podia, avisei que iria – disse Matheus descuidadamente.
Roberto deixou o assunto morrer por aí e ouviu o resto da missa.
Nenhum comentário:
Postar um comentário