sábado, 28 de fevereiro de 2009

A Rua (parte I)

Juliano andava. Estava escuro. Ele estava atrasado. As ruas de porto alegre estavam vazias; uma cidade fantasma, uma necrópole. Ele espirrou. Estava frio. Deus! Que noite horrível para se caminhar. Metros à frente ele via um porte alto, a luz descendia dele para o chão criando uma vaga mancha amarelada de luz no chão. Ele olhou cansadamente para frente. Caminhar à noite durante o inverno da região sul. Juliano, você é mais burro do que parece!

Vários metros à frente – uns dez postes à frente daquele pelo qual ele passava agora – ele viu um poste apagado. Pensou no que poderia ter acontecido para que aquele poste se apagasse. Pensou que talvez a lâmpada fosse muito velha, talvez algum moleque a tivesse estilhaçado com uma pedra. Devaneou.

Foi logo tirado de seu sonhar acordado. Um carro passou a toda pela estrada perto dele. Uma caminhonete passou zunindo pela estrada larga e freou do nada marcando o asfalto com duas listras de um preto escuro. Juliano parou e olhou para o carro curiosamente. O carro simplesmente parou no meio da estrada deserta e ficou lá. A película de “insulfilm” escura tapava todos os vidros da caminhonete vermelho-escuro e ele não pôde espiar lá dentro. O carro estava parado a uns seis metros à frente do poste apagado. O motor roncava trabalhosamente. O carro ficou lá quase um minuto antes de finalmente começar a se mover. Deu a ré – era ilegal naquela rua, mas ela estava vazia – até perto de onde estava Juliano e entrou numa garagem do outro lado da rua.

Juliano ficou ali mais um momento antes de balançar a cabeça para espantar o sono e pôs-se a andar amaldiçoando a namorada por fazer-lo ir comprar remédios e absorventes. Ele começara a rir achando que era brincadeira. Saiu correndo a tempo de escapar de um vaso voando sobre sua cabeça. Ele deu uma risada ao pensar nisso. Continuou em frente andando pelo escuro na estrada.

Ouviu algo, um som duro e repentino atrás dele, como passos. Virou-se curioso, mas não viu nada apenas a rua vazia iluminada periodicamente pelos postes de lâmpadas amareladas. Ele não parou, não deu uma segunda olhada. Estava com pressa, continuou a andar sem dar importância. Pensou que talvez um dia ela pensasse naquele dia e risse. Talvez ela pedisse desculpas então. Ele suspirou. Tinha certeza de que quando chegasse iria levar um esporro pela demora. Suspirou cansado e olhou em frente. O poste apagado estava mais perto agora.

Ele congelou. Sentiu o coração escalar até sua garganta, sua pele pulando com calafrios e seu estomago sumindo em algum lugar dentro dele. Ele engoliu em seco, mas o que quer que tenha tentado passar pela garganta dele não foi muito longe. Ele pôde ouvir o único som naquela rua – de dia tão movimentada! – vazia e escura: sua respiração pulsante e rápida e irregular e, mais ao longe – quilômetros de distancia, milhares de quilômetros – outra respiração, um som fraco e distante. Regular, calmo. Ele apertou o passo, mas a respiração rítmica continuou ainda mais rápida e ele pôde ouvir as solas de borracha de um par de sapatos se deformando contra o chão duro de concreto. Ele já arfada de medo quando parou repentinamente e se virou estudando o peito e cerrando os pulsos pronto para pegar o sacana que…

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